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Tuesday, June 04, 2013

“O Livro dos Peixes de Gould” de Richard Flannagan ( Dom Quixote)



Tradução de José Couto Nogueira


Richard Flannagan nasceu na Tasmânia, Austrália, em 1961, numa família numerosa – era o quarto de seis filhos. Passou a infância na cidade mineira de Roseberry, deixando a escola aos dezasseis anos para trabalhar. Mais tarde, viria a frequentar a Universidade de Oxford, apesar de antes ter estudado anteriormente na Universidade da Tasmânia na área de Artes, o que explica a obsessão da personagem principal do romance de que aqui tratamos por este tema. Flannagan obteve reconhecimento imediato no meio literário com o primeiro romance Death off a River Guide o qual arrebatou vários prémios na Austrália entre eles o National Fiction Award em 1996. Com The Sound of the Hand Clapping obteve o Australian Booksellers Book of the Year Award e o Venice Palmer Prize for Fiction. O romance foi adaptado ao cinema e co-realizado pelo Autor em parceria com Martin Grath. Mas O Livro dos Peixes de Gould também não passou despercebido ao conquistar o Commonwealth Wirtes Prize em 2002.

O desenvolvimento da trama de O Livro dos Peixes de Gould estrutura-se em duas dimensões distintas, criando uma narrativa secundária que serve para introduzir e contextualizar uma outra que será a narrativa principal e, depois, concluí-la no último capítulo, o qual fecha um ciclo, à laia de epílogo. Esta narrativa secundária é construída e implantada no tempo presente, com um narrador participante, e é a partir dela de do narrador que lhe dá voz – o antiquário Sid Hammet – que nasce o pretexto para a construção de uma história onde o maravilhoso e o real se cruzam com a missão de reconstruir o passado histórico da Tasmânia e a história pessoal de um artista de talento invulgar, caído no esquecimento. É este o cerne do romance, que se desenrola a partir do momento em que Sid Hammet, antiquário e falsificador, encontra um estranho diário com belíssimas ilustrações de bizarros peixes. O autor da obra é William Gould, um presidiário da antiga colónia penal local, condenado às galés no século XIX, criador de uma obra de arte cuja perfeição artística ultrapassa o campo visual das artes plásticas, legendada com as suas estranhas crónicas que acompanham as ilustrações.

O Livro dos Peixes de Gould é uma obra de carácter alegórico, a qual tem por objectivo criticar a mercantilização da Arte e a forma como se faz história, segundo o paradigma do darwinismo social, isto é, segundo as premissas do marketing civilizacional daqueles que triunfam, recorrendo muitas vezes à fraude ou distorção dos factos. Acreditar neles ou não conforme se nos apresenta é, para o Autor, o mesmo que acreditar no Milagre de Fátima tal como este é apresentado à opinião pública. Não surpreende que o livro não tenha sido amplamente divulgado em Portugal, já que é uma obra que poderá incomodar pela capacidade de destruir mitos, por ser iconoclasta, portanto. Logo no primeiro capítulo é feita a alusão ao episódio dos pastorinhos de Fátima e à mistificação e mitificação tecida à volta do que se passou na Cova d'Iria a título de exemplo:

Estava sem trabalho, pois pouco trabalho havia então na Tasmânia , embora haja ainda menos agora. Talvez a minha alma estivesse mais susceptível aos milagres do que estaria nutra situação. Talvez do mesmo modo que uma pobre camponesa portuguesa vê Nossa Senhora, porque não deseja ver mais nada, eu também desejasse ficar cego em relação ao meu mundo. Talvez se a Tasmânia fosse um sitio normal onde se tivesse um trabalho trivial, se passassem horas no trânsito para se passar mais horas ainda num choque normal de ansiedades, para depois voltar ao confinamento normal, e onde ninguém nunca sonhasse o que era sr um cavalo-marinho, talvez situações anormais como a de alguém se tornar um peixe não acontecessem as pessoas.
Digo talvez, mas francamente, não tenho a certeza.
Talvez estas coisas estejam sempre a acontecer em Berlim e Buenos Aires e as pessoas se sintam embaraçadas demais em admiti-lo. Talvez a Nossa Senhora apareça constantemente nos Bairros Sociais de Nova Iorque e nos horrores dos arranha-céus de Berlim e nos subúrbios ocidentais de Sydney e toda a gente faça de conta que ela não aparece e espere que se vá embora o mais depressa possível para não os envergonhar ainda mais. Talvez a Nova Fátima seja algures nos imensos baldios do Clube dos Trabalhadores de Revesby, um halo no acanhado ecrã onde pisca “A Febre do Blacjack”!»

O protagonista Sid Hammet chama atenção para a existência de um mundo demasiado cartesiano, racional, científico, no qual os humanos desaprendem a imaginação e o maravilhoso: o livro dos peixes de Gould desaparece-lhe, contudo, de forma tão misteriosa que, a partir de então, a sua vida passa a ser a recuperação dessa dimensão da existência humana. O livro de Gould será, para Hammet, o Portal para um mundo desconhecido, fantástico, surreal e bizarro.

Ao usar a voz do narrador do século XXI, o Autor tenta comparar duas épocas diferentes com um fosso de quase duzentos anos entre elas, aproveitando para ilustrar com um exemplo passado num país católico, ocorrido no início do século XX para mostrar a como são semelhantes os processos mentais, de imaginação, criatividade e de exercício de poder, independentemente da cultura ou época histórica. Para tal, Flannagan tece uma analogia entre este episódio passado em Portugal, que adquire significado simbólico, para aquilo que foi dito no período anterior, por ser uma terra que se situa nos antípodas da Tasmânia, que servirá para introduzir o episódio protagonizado por um antiquário daquele país, perito em falsificar em mascarar velharias inúteis e sem valor de antiguidades preciosas para vender a turistas ingénuos, americanos sobretudo, famintos de História e Autenticidade.

A transposição para a narrativa principal apenas surge quando entra em cena o misterioso livro, sobre o qual nunca chegaremos a saber ao certo se se trata do produto de um delírio de Sid Hammet, de uma falsificação deliberada ou se existe uma base real para os factos relacionados com o referido livro, tal como no “milagre” de Fátima. O misterioso livro do peixes de Gould, surge de forma inesperada e inexplicável, do nada, portanto, com estranhas e fascinantes ilustrações de peixes exóticos. O livro é uma espécie de talismã que faz diluir as fronteiras do tempo entre dois tempos distantes contidos no romance. A forma como o livro entra na vida do antiquário assemelha-se à visita de uma entidade sobrenatural, na qual só acredita quem quer, de facto, acreditar. E esta é a forma que o Autor encontra para se salvaguardar, ao reescrever a história da colónia penal da Tasmânia, sem a maquilhagem que os governos sucessivos daquele antigo território do Império britânico a vestiram para, assim, passar ao mundo a imagem de um Império progressista e “civilizador” dos povos do Universo. Sid Hammet vê naquele livro algo de extraordinário para fugir à mediocridade da vida quotidiana, da mesma forma que outros povos poderão ver num milagre a fuga a uma vida de miséria e sem esperança. A trama da narrativa principal ocorre no século XIX e nasce a partir da narrativa secundária passada no século XXI, e da obsessão de Hammet pelo artista presidiário, que o escreveu e ilustrou. Esse mesmo livro vai alimentar-se dos leitores que, tal como os fiéis e peregrinos que se deslocam todos os anos àquela pequena cidade em Portugal, acreditam no milagre fabricado pela imaginação, deixando-se aprisionar pelo maravilhoso contido na lenda que se vai construído ao longo dos tempos. A narrativa principal, contendo a história de William Buellow Gould, tentará empreender o sentido inverso, servindo o livro de ilustrações de máquina do tempo.

O que é que havia naquela suave radiação, a fazer-me acreditar que tinha vivido a mesma vida vezes sem conta, como um místico hindu, preso para a eternidade na 'Grande Roda' que se tornara no meu destino? Que roubara a minha personalidade? Que tornou o meu passado uma só realidade indivisível?

A ponte estabelecida entre ambas as narrativas e as duas vozes que as representam – o passado e o presente – parte deste achado inverosímil e leva os leitores a pensar poder ser o antiquário do mundo contemporâneo descendente de Gould ou de um dos milhares de prisioneiros irlandeses deportados para aquela ilha, nos dois séculos que precederam o actual. Falamos concretamente da Terra de Van Diemen, hoje Tasmânia, durante o século XIX.

A identificação entre ambos os narradores é de tal forma evidente que ambas as personalidades acabam por se fundir, como se fosse a mesma personagem a viver em séculos diferentes através de um processo semelhante à metempsicose. Ou será antes o antiquário que se apropria da alma do artista, falecido há mais de um século, na tentativa de fazer passar por sua uma obra arrancada ao esquecimento da História.

A trama principal vai-se desenrolando, de surpresa em surpresa, e William Gould, prisioneiro condenado às galés por um crime menor, tal como Jean Valjean de Victor Hugo, escreve a partir da sua cela, diariamente inundada pelas marés, num caderno onde vai codificando a personalidade daqueles com quem convive e dirigem aquele estabelecimento prisional, guardando os traços mais monstruosos de cada um deles nos seus desenhos e habilidades de ictiólogo. Nesses desenhos são projectadas as características mais monstruosas dos seres humanos com quem convive. Na verdade aqueles não serão homens mas peixes, de sangue frio, autênticos monstros marinhos. Na verdade todo o “livros de peixes” de Gould é uma colectânea de metáforas ontológicas onde os peixes não são mais do que personificações. A descodificação das mensagens, cifradas nas ilustrações, é feita pelo falsificador do tempos modernos, e tem como missão desvelar aos leitores o retrato de seres humanos muito mais horrendos, ridículos, ou burlescos do que qualquer forma estranha à nossa espécie: cada peixe ilustrado faz-se acompanhar por uma descrição física e comportamento típico, associado a estratégias de sobrevivência, mas na realidade, Gould descreve sua própria relação, enquanto artista presidiário, com os seus carcereiros, incluindo o director prisional, o responsável por toda a colónia penal, governador da ilha, a amante nativa.
Mas este não é o único aspecto que é destacado no romance. O próprio editor declara a respeito da temática explorada por Flannagan que:

«Inspirado por esta personagem real do início do século XIX, Richard Flannagan constrói um panorama devastador do colonialismo inglês e do racionalismo científico que o sustentou (…). O Livro dos Peixes de Gould” é uma fábula que levanta questões acerca da autoria da História, da Ciência e da substância que dá vida à criação artística.»

E que: “A História não é escrita por quem a conhece,mas por quem pode”.

A reconstituição histórica da actividade e percurso da colónia penal da Terra de Van Diemen, contempla também as dificuldades em escrever na época, agravadas pela condição de presidiário do narrador. Em 1828, encontrar os materiais necessários para a actividade da escrita revela-se quase um trabalho de Hércules, devido à raridade e preço das matérias-primas. A isso junta-se a actividade de ilustrador, cujo material de trabalho se obtinha a preços absolutamente proibitivos, daqui nascendo a necessidade do protagonista em encontrar técnicas alternativas, passando por complicadas negociações com o carcereiro de forma a obter o que precisa para trabalhar. A curiosidade científica e a busca de melhores condições para o trabalho de Gould acabam por abrir-lhe uma a porta de entrada proibida para a história oculta da administração da ilha e da colónia penal, dando a conhecer crimes hediondos e impensáveis por personagens socialmente inatacáveis. Crimes esses cuidadosamente mascarados com uma requintada operação plástica a que a patine da história oficial e da passagem do tempo ajuda a disfarçar, esbatendo os contornos originais dos acontecimentos.

Há, no entanto, um imprevisto que assola Sid Hammet, já no século XXI: o livro original desaparece misteriosamente, por isso cabe ao narrador que dar a voz ao tempo presente e reconstituir, de memória, a obra original, obrigando a utilizar com o requinte e precisão das suas habilidades de falsificador, para o reescrever tornando-o tão semelhante quanto possível com o original, tal como fizera o seu antecessor, condenado ao inferno da prisão em vida e ao esquecimento após deixar este mundo. Cabe a este perito em imitação, efectuar o autêntico reescrever da história e da História e mostrar a outra face o que não se sabe da Terra de Van Diemen..A exposição da galeria de horrores que é o interior de uma colónia penal e cujo quotidiano está vedado as olhos da maioria dos cidadão é a própria imagem do Tártaro, a que foi condenado Gould por ser um imitador talentoso, actividade que acabou por conduzi-lo a caminhos perigosos e ao cárcere. Na prisão, é encorajado, mais uma vez a fazê-lo, pelo médico da colónia penal, Lamprière, que tenta fazer fortuna à custa do prisioneiro. Em troca, recebe os materiais que utilizará ara ilustrar o seu “livro de peixes” com o qual acredita poder ser catapultado para a Royal Society of Artists. Assim, Gould entra, quase sem dar por isso, numa complexa rede de relações perigosas, situação que agravada pelo facto de se envolver sexualmente com a sensual e despudorada amante do seu carcereiro.

O principal mérito deste romance de Flannagan consiste em desmistificar aquilo que consistiu na maior falsificação de sempre até àquele momento histórico, um tempo de rigor aparente: a moral vitoriana.

O romance começa e termina com um cavalo-marinho, embora de duas subspécies diferentes fazendo corresponder cada um deles ao prólogo e ao epílogo da trama, e são ambos narrados pelo antiquário que se dedica a fazer do entulho que lhe vai parar à loja antiguidades de valor inestimável. Os restantes capítulos ou “peixes” são narrados por Gould: é como se, no século XXI, Hammet estivesse a ler o diário de um antecessor seu que vivera quase 200 anos antes Ou de si próprio, numa existência anterior.

As referências a outros autores, clássicos da literatura universal, traduzem-se em inúmeras intertextualidades, desde Flaubert, a propósito do processo criativo e da projecção do eu na escrita; Victor Hugo também é evocado a propósito da condenação de Gould, cuja pena é assombrosamente desproporcional em relação à falta cometida, como vemos acontecer em Os Miseráveis; é também feita a alusão a Dostoiévski a propósito de Crime e Castigo e a Ovídio e ao seu Metamorfoses, aqui sob a forma de homens-monstruosos, transformados em peixes cuja morfologia põe a sua personalidade a nu. Também encontramos alusão a Hermann Melville, nas entrelinhas, aquando da incursão de Gould no ambiente hostil da selva aborígene da Tasmânia, lembrando o inferno verde e quase intransponível que Melville descreve em Taipi e Conrad em O Coração das Trevas. Apesar de tudo, as populações nativas parecem ser bem menos selvagens do que os colonos europeus de então, de acordo com os relatos de Gould reescritos por Hammet.

O Livro dos Peixes de Gould é a caricatura do colonialismo britânico em terras remotas, mas contado em tom de sátira um pouco à semelhança de Gargantula de Rabelais, o que faz com que Flannagan seja um Autor cujos livros não basta ler só uma vez. É um escritor ao qual se deseja voltar para usufruir uma e outra vez das mesmas emoções, como quem admira uma obra de arte. E, por isso, Uma escrita a (re)descobrir e a explorar.

05.08.2012-05.05.2013

Cláudia de Sousa Dias

4 Comments:

Blogger P said...

Desconhecia. Parece-me interessante, diferente, pouco convencional.

5:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Nada convencional.

:-)

Mesmo...




csd

6:27 PM  
Blogger marinel matos said...

o livro que mais me prendeu o Verão passado. delicioso

8:11 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Sim também foi um dos melhores que li em 2012.

mas há outros que aí vÊm: Cabrera Infante (já postado), Millás, Faciolince e Maria Velho da Costa foram alguns deles.

8:54 PM  

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