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Thursday, January 10, 2013

“Receitas de Amor para Mulheres Tristes” de Héctor Abad Faciolince (Quetzal)




Tradução de Pedro Tamen

Dados Biográficos:

Héctor Abad Faciolince nasceu em Medellín, na Colômbia, país onde realizou os seus estudos deixando, no entanto, incompletas as licenciaturas em Medicina, Filosofia e Jornalismo, tendo sido expulso da Universidade Pontifícia Boliviana por escrever um artigo irreverente contra a figura do Papa. Decide, então, viajar para Itália, onde aí sim, se licencia em Literaturas Modernas, regressando ao seu país em 1987. Mas nesse mesmo ano, é alvo de várias ameaças de morte por parte de grupos de paramilitares, pouco depois de lhe terem assassinado o pai, a mando da elite reaccionária. Refugia-se novamente em Itália, onde conclui o doutoramento, ficando a seu cargo a cátedra de Espanhol, na Universidade de Verona.
Anos depois, mais uma vez de volta ao seu país, Faciolince traduz obras de vários autores de língua italiana, entre os quais Umberto Eco e Giuseppe Tommasi di Lampedusa, ficando a seu cargo também a reitoria da Universidade de Antioquia. É então que inicia, finalmente a sua carreira de escritor. Publicou já quatro romances, dentre os quais Basura que lhe proporcionou o Primeiro Prémio da Narrativa Inovadora da Casa da América, em Madrid. Publicou ainda um livro de contos, um livro de viagens e a obrao de que aqui falamos hoje, que alguns classificam “de género incerto”. Assim, Tratado de culinaria para mujeres tristes conta com a belíssima tradução do poeta Pedro Tamen mas o título atribuído à edição portuguesa perde um pouco da força original ao ser modificado para Receitas de amor para Mulheres Tristes, oferecendo, desta forma, aos leitores uma perspectiva bastante redutora da obra. A fórmula em português dá a entender tratar-se este conjunto de textos de uma obra do género “literatura de água com açúcar”, um estilo light que nada tem a ver nem com o Autor nem com a obra. Porque em primeiro lugar, não se trata apenas de receitas de amor, nem mesmo de uma colectânea de afrodisíacos, destinados a servir de paliativos a mulheres solitárias, amargas ou ma-amadas, com efeito placebo. Não. Em segundo lugar, não se trata de buscar na culinária uma forma de adoçar a vida ou encontrar no prazer da gula a fuga à tristeza, seja ela passageira ou crónica. Trata-se de uma forma de olhar a vida com uma pitada de estoicismo sim, mas imbuído de humor negro , rir das desgraças, escarnecer delas para assim esconjurá-las. Assim se logra diminuir a força dos “demónios” interiores, dos medos, muitas vezes infundados ou irrealistas mas que ampliam o lado cinzento da vida. Assim se impede muitas vezes que a tristeza interrompa o curso natural da vida. Claro que isto nem sempre acontece e o Autor é suficientemente honesto para demonstrá-lo: a maior parte dos textos encerram em si os constrangimentos a que estão sujeitas as mulheres na sociedade colombiana, profundamente católica e conservadora, onde se percebe que a maior parte dos dramas existenciais das do género feminino naqueles país, ao longo das últimas décadas, tem a ver com questões de desigualdade de tratamento das questões sociais entre homens e mulheres ( a traição, as relações sexuais antes do casamento, o assédio, sexual, o receio da perda da beleza e do envelhecimento) aspectos aparentemente pueris, mas que resultam de todo um condicionamento cultural a desembocar numa série de contradições entre o desejo e as normas sociais. Nas soluções propostas por Faciolince, percebe-se que o ultrapassar desses constrangimentos sociais implica um processo lento, desenvolvido com paciência, astúcia e muita subtileza. Há, no entanto um texto que descreve sim, uma receita de amor, para uma mulher entristecida pela doença, mas de cuja identidade só nos apercebemos quando lemos a obra autobiográfica de Héctor Abad Faciolince Somos o esquecimento que seremos. Aliás, todas as pessoas a quem são dirigidos estes textos estão presentes naquela obra, que será tratada no âmbito deste blogue dentro de alguns meses. O texto a que me refiro é uma reflexão onde se tenta mitigar a dor recorrendo a medidas drásticas, mas sem qualquer esperança de alegria.
A comida e a culinária neste Receitas de Amor para Mulheres Tristes são apenas um pretexto para mostrar um olhar diferente face aos muros ou obstáculos que vão surgindo ao longo da vida.
A cozinha é somente uma forma de abstracção das contrariedades que se nos apresentam no quotidiano. A verdadeira fórmula contra a tristeza está, na verdade, contida na capacidade de provocar o riso, de despoletar a explosão de uma gargalhada em alguém. É essa a finalidade das receitas “milagrosas” de Héctor Abad Faciolince, cujo humor ácido e profundo sentido de ironia revela um detalhado conhecimento da psique feminina, natural num homem que cresceu rodeado de mulheres: a mãe, a ama, avós, tias e cinco irmãs.
O livro é dedicado à primeira e às últimas e parece que, a acompanhar cada receita há, senão uma gargalhada, pelo menos um sorriso, usado como fórmula mágica para dissolver ou, na menor das hipóteses, atenuar a tristeza ou a melancolia em cada situação específica, seja ela a infelicidade crónica, a traição ou suspeita de, o ciúme, o nervosismo, o receio da competição com as sogras na cozinha, o mau hálito, a culpa...
Os textos dirigem-se a diversas destinatárias nas mais variadas circunstâncias, onde o verdadeiro remédio para afugentar a tristeza é simplesmente...ler o livro.

Aqui ficam, pois, três textos extraídos de Receitas de Amor para Mulheres Tristes para alegrar a semana:

«Se estiveres nervosa, ainda serve o velho chá de macela, mas não deves cortá-lo com limão ou com doce. Não funciona se o que te preocupar for mais forte do que tu. E, se assim for, convém que estejas nervosa.»

ou

«Essa tendência para traíres, para mentires – e para seres perfeitamente franca. Para te esconderes ou para te mostrares muito. Esse cuidado de te preservares tanto – para acabares a contar a tua história, com todos os pormenores a um desconhecido. Essa vontade se fugires, de saíres a correr quando alguém mostra que começa a conhecer-te, embora não te reveles, e essa vertigem de ficares. De envolveres as carícias em palavras. Essa vontade de mudares sem renunciares a nada. Essa fome de impossíveis. Como pensar no meio desta confusão contraditória? É verdade e mentira, está bem e está mal, e não há saída.

Nada a fazer. Toma um copo de água.»

e ainda

«Àquele insolente que anda atrás de ti sem perceber que tu não queres; a esse que te encosta a coxa ao joelho e te põe a mão no corpo sem graça e sem efeito, ou com efeitos de rejeição; a esse, mais fastidioso que um mosquito ao adormecer, mais incómodo que uma pedra no sapato, importuno como uma bolha no nariz, como comichão em má hora e pior parte, nauseabundo como fedor em hora de almoço, como um cabelo na sopa, a esse enjoativo como mel com açúcar e marmelada, detestado como ave de mau agoiro, a esse bocejo humano, a esse impertinente, eu te digo como o hás-de afastar.

Prepara este caldo: duas onças de estricnina, seis gramas de cicuta, uma pitada de arsénico e três colherinhas de sais de mercúrio, tudo muito bem misturadinho com azul de metileno. Eu bem sei que és muito educada e que o farmacêutico não há-de querer aviar-te a receita. Por ambas as razões, aquele impertinente voltará à carga com as suas baboseiras e mãozinhas.

Podes pôr de lado por um instante as tuas boas maneiras e dar-lhe um grito imenso que o envie para aquela infinita e inultrapassável distância designada pela palavra merda.

Mas, melhor ainda, sem perderes a estribeiras, podes usar uma receita – horrível – para o fazer desandar, um prato que vá fazendo estragos em língua e palato, e produza catástrofes no esófago e na barriga.

Faz uma maionese com ovos nem podres nem muito frescos e com o azeite rançoso que usaste para fritar peixe. Muita, muitíssima maionese. Entretanto, põe ao lume um punhado abundante de talharins e deixa-os a ferver três vezes o tempo recomendado na caixa. Liquefaz o feijão que sobrou do almoço de quarta-feira, com pedacinhos de fígado e um pouco de mão-de-vaca. Retira do lume os talharins esbranquiçados e babosos, deita-lhes a maionese e o feijão e rala-lhes em cima um pouco do queijinho que sobrou do outro dia.

Nega que tenhas fome e serve-lhe a mistela, bastante morna e quase a puxar para o frio. Não proves esta mezinha. Olha antes para a maneira como se vão nublando os olhos do impertinente. Há-de fazer elogios ao teu prato porque é bajulador. Até pedirá para repetir. Beberá dois copos de água morna (põe na mesa assim, temperada na cozinha). A certa altura, há-de perguntar onde é a casa-de-banho. Pouco depois há-de lembrar-se de uma coisa de que se esqueceu, de um assunto urgente, e sairá pela porta fora. Nunca te esquecerá, nem a ti nem ao teu prato. Mas não voltará. Ufa, não voltará, enxotaste-o para sempre.

Se voltar, cianeto ou estricnina (imaginários).»


H.A.F.




06.08.2012-06.01.2012
Cláudia de Sousa Dias

5 Comments:

Blogger Maria said...

O meu tipo de livro :P
As receitas devem resultar...

beijinhos

5:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

eheheh...!

5:43 PM  
Blogger Ana Gil said...

deparei-me também com o último parágrafo e dá vontade de rir.
mas não um riso qualquer.
mas um, bem alto!

6:24 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

mesmo!

6:25 PM  
Blogger Ana Gil said...

This comment has been removed by a blog administrator.

6:31 PM  

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