HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

My Photo
Name:
Location: Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Thursday, January 03, 2013

“A Herança de Eszter” de Sándor Márai (Dom Quixote)

Tradução de Ernesto Rodrigues

A trama deste romance de Sándor Márai Autor do qual já falámos neste blogue a propósito de As Velas ardem até ao fim e de A Mulher Certa, tem como cenário principal o universo de duas mulheres idosas, Eszter e a prima pobre Nana, ambas solitárias que esperam já muito pouco da vida. Nana fora ama das crianças filhas da casa, tendo cuidado inclusive de Eszter e dos seus irmãos, Vilma e Marius.

A existência das duas últimas habitantes daquela casa de família é perturbada por uma visita, inesperada pela longa ausência, que se faz anunciar por carta. Trata-se de Lajos, viúvo de Vilma e o grande amor de juventude de Eszter, que a trocara pela irmã mais nova.

Mas desenganem-se aqueles que pensarem tratar-se este romance da busca do tempo perdido cujo objectivo consiste em resgatar uma paixão que ficou cristalizada no passado. Trata-se sim, da descrição de todo um processo que edifica um engenhos esquema de manipulação, partindo da fragilidade de um sentimento imorredoiro numa mulher, vítima de uma desilusão amorosa na adolescência e a qual carrega as feridas ainda mal cicatrizadas dessa mesma paixão, ao longo de mais de duas décadas. Trata-se do sentimento persistente de que algo lhe foi roubado, um sentimento que sobrevive à custa da esperança de uma restituição eternamente adiada. Lajos, que vai buscar o nome a uma personagem pouco simpática da tragédia Édipo Rei de Sófocles, representa nessa obra de Sándor Márai o papel de anti-herói,cuja personalidade vai sendo gradualmente revelada por Eszter, a narradora, que decide contar a sua história e a de Lajos, já no fim da vida. Trata-se, portanto, de um romance auto-diegético onde o narrador é também personagem e protagonista. A perspectiva dos acontecimentos chega-nos através de Eszter, num tom assaz fatalista, já que esta é uma narradora omnisciente, que conta os factos já depois de estes terem ocorrido estando, por esse mesmo motivo, na posse de todos os elementos que lhe permitem obter um conhecimento profundo do ocorrido. No tempo presente, Eszter tem a perfeita noção de todas as nuances do carácter de Lajos e das jogadas que é capaz de fazer, algo que antes apenas intuía, sem contudo conseguir escapar à teia de intrigas edificada por Lajos, sempre envolto na aura de falsa amabilidade com que atrai as suas vítimas. Os acontecimentos desenvolvem-se assim a partir de uma analepse, isto é de uma regressão ou flash back, arquitectados num encadeamento de situações ocorridas como que sob efeito dominó, cujo desfecho se adivinha inexorável.

As condições para que isto se passe desta forma, seguindo este caminho e não outro, têm a ver não só com a extrema fragilidade emocional da protagonista, do seu extremo isolamento, mas também com a sua noção de honra e dever, a forma como encara a missão de zelar pelo património, pelo bom nome e bem estar da família, como um todo. E Lajos e os filhos de Vilma fazem arte dessa família. É nestes dois pilares que assenta a personalidade de Eszter, que Lajos conhece muito bem e através dos quais consegue manipular a antiga namorada. No início, quando conhece a família, Lajos é apenas um colega da faculdade de Marius, mas que forja a sua própria situação económica ao dar a entender ser originário de uma família abastada e cosmopolita. No entanto, para um um olhar mais experiente, com o advogado da família e um jovem pretendente de Eszter, os hábitos e estilo de vida de Lajos indiciam muito mais um carácter indolente dissimulado. No primeiro caso, um certo grau de exibicionismo utilizado com habilidade para conseguir cativar uma família de origem provinciana, simples mas com posses, consegue fazê-lo passar-se por um homem cultivado, vivido, experiente e apresentar-se como um verdadeiro presente dos deuses para duas jovens que nunca saíram da povoação e as quais passam, então, a disputá-lo. Por outro lado, o excessivo cuidado na toillete, e o excesso de dramatismo como no dia do funeral de Vilma, a teatralidade do discurso ilustram um carácter voltado para a interpretação de um papel, como se fosse um actor a vestir a pele de uma personagem de um filme ou de uma peça de teatro.
Ao referir-se à figura de Lajos, Eszter denuncia, no seu discurso, um certo sentimento de inferioridade não que parte não só de si própria, mas que se estende à sua família após começar a conviver com Lajos. A partir desta altura, as dívidas começam a acumular-se, não só porque o patriarca, de certa forma, se envergonha de parecer mesquinho, mas porque Lajos, sobretudo após casar com Vilma e começar a participar nos negócios do clã, esgota as reservas financeiras do mesmo e, à data da morte do pai de Eszter, resta já muito pouco do património familiar. Um amigo da família consegue ainda salvar uma pequena parte da herança e de forma a garantir a Eszter o mínimo de sobrevivência.

As personalidades de Eszter e Lajos situam-se nos dois extremos do mesmo continuum no tocante aos escrúpulos. Eszter é tão sensível à possibilidade de ser injusta ou de magoar alguém que cede facilmente à mínima pressão emocional. Trata-se da presa ideal para alguém como Lajos. A Herança de Eszter é assim um romance que assenta ,não num conflito de personalidades opostas, mas numa relação de domínio e submissão de uma perante a outra. Não se tratando, no nosso entender, do melhor romance de Sándor Márai, que provavelmente necessitaria de um desenvolvimento mais detalhado em termos diacrónicos para que o leitor tomasse consciência do processo lento e gradual de fragilização de Eszter fruto do desamor, mas que é compensado pela verosimilhança e dramaticidade do discurso da protagonista.

Eszter é o produto de uma sociedade rural, conservadora, onde imperam os valores da honra , do sacrifício e também uma mentalidade, especialmente vincada no género feminino – exceptuando no carácter frívolo de Vilma – da noção de altruísmo e piedade judaico-cristã. Lajos, pelo contrário, é o produto acabado de uma sociedade urbana, onde domina o cinismo que implica a sobrevivência do mais forte ou daquele melhor se adapta. É o lugar dos camaleões sociais. Uma selva humana onde a competição para conseguir ascender socialmente leva, muitas vezes, a seguir caminhos tortuosos que nem sempre se pautam pelo mérito ou pela transparência dos meios usados para atingir determinados fins. E Lajos escolhe caminho à margem da meritocracia. Habituado à vida boémia dos bares e salas de jogo é realmente um homem mundano, sedento de aventuras, indisciplinado e temperamental, mas que sabe representar o papel de homem íntegro para iludir aqueles que caem nas suas armadilhas.

A ingenuidade é o traço que se encontra patente na voz da narradora, que só muito mais tarde se apercebe do verdadeiro carácter do ex noivo o qual mente não só com palavras mas também com actos e factos. Aqui, Eszter recorda a já mencionada da encenação de viúvo inconsolável de Lajos durante o funeral de Vilma. Assim, Lajos mente não só porque é um hábito que parece estar enraizado já no seu carácter por longos anos de treino intensivo, mas porque o acto de mentir se lhe apresenta útil para conseguir os seus intentos, dizendo o que lhe convém consoante as circunstâncias,permitindo-lhe, assim triunfar.

Logo que lemos as primeiras linhas do texto somos imediatamente capazes de intuir os demónios que atormentam Eszter. Após manifestar a intenção de contar a forma como Lajos a despoja da sua herança, a narradora refere imediatamente a mensagem do cunhado a anunciar uma visita após uma ausência de vinte anos. Esta referência a um encontro entre duas pessoas que não se vêem há tanto tempo trás à memória o reencontro entre outros pares de personagens de Márai: os dois participantes no jantar à luz de velas em As Velas arde até ao fim. Mas apesar de a personalidade base de Eszter ser muito semelhante ao carácter do protagonista daquele romance, A Herança de Észter toma um rumo completamente diverso. Lajos por seu lado assemelha-se mais ao carácter escorregadio e dissimulado de Judith de A Mulher Certa”.

É também frequente, nos romances de Márai, a presença de um adjuvante, um confidente do protagonista. Em As Velas ardem até ao fim é a velha ama a guardiã que ela pela conservação da casa, tal como a prima de Eszter, Nana, no romance de que aqui tratamos. Em A Mulher Certa é o escritor, amigo de Péter, que assiste à queda do amigo em simultâneo com todo um sistema económico. Sándor Márai é um escritor muito hábil na descrição dos meandros e contradições que envolvem a natureza humana bem como na construção dos perfis psicológicos das suas personagens. Os seu livros são autênticas sessões de psicanálise onde o protagonista que normalmente coincide com o narrador,se deita no divã que a mente da pessoa que lê o romance.

A Herança de Eszter é um livro que se pode ler numa tarde, mas cujo impacto é tão forte que dificilmente conseguimos deixar de pensar nas suas personagens durante as horas seguintes após a leitura do último parágrafo. Tal facto deve-se à verosimilhança do discurso, como se o ouvíssemos da boca de um familiar nosso ou de uma conversa ocasional escutada, confidenciada no eléctrico a caminho do emprego, como verificamos no texto que se segue:

Não sei o que Deus ainda me reserva. Mas antes de morrer quero escrever a história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou. Há três anos que venho adiando estes apontamentos. Agora sinto como se uma voz, contra a qual não posso defender-me, me exortasse a escrever a história desse dia – e tudo o que sei acerca de Lajos – porque esse é o meu dever, e já não tenho muito tempo. Uma voz assim é inequívoca. Por isso obedeço, em nome de Deus. Já não sou jovem nem tenho saúde e, em breve, terei de morrer.
Talvez devido ao tempo, que não me perdoou, talvez devido às recordações, tão cruéis como o tempo, talvez por um particular estado de graça que, segundo os ensinamentos da minha fé, também toca por vezes os indignos e destinados, talvez, simplesmente pelo peso da experiência e da velhice, olho a morte de frente, com serenidade. Presenteou-me a vida maravilhosamente e, implacavelmente me despojou...o que mais posso esperar? Tenho de morrer, que isso é a lei, e porque cumpri o meu dever.
Sei que palavra é esta e, vendo-a agora, escrita, sinto-me um pouco intimidada. É uma palavra arrogante, pela qual vou ter de responder, um dia perante alguém. Demorei algum tempo a reconhecer qual o meu dever e obedeci, contrariada, sim, uivando e protestando desesperadamente. Senti, então, pela primeira vez, como a morte pode ser redenção, e soube, também, como a morte é resgate e paz. Que estranha foi essa luta! Quem me obrigou e porque não pude esquivá-la? Tudo empreendi para escapar dela. Mas o inimigo vinha atrás de mim. Agora já sei que não podia ser de outro modo. Estamos ligados aos nossos inimigos e eles também não podem fugir de nós.”

Aqui está, evidentemente, explícita a ideia de redenção. Mas está também implícita, não a ideia de vingança mas de justiça onde, através de um longo relato se pretende desmascarar, de uma vez por todas, um vilão. A história é, portanto, uma narrativa circular, na qual os últimos parágrafos do epílogo se encaixam e explicam esta introdução, fechando o círculo como uma bracelete rígida. Assim A Herança de Eszter apresenta-se como um livro de grande intensidade dramática, um desfile de desilusões, iluminadas pela tomada progressiva de consciência, levada a cabo pela protagonista, e da destruição da esperança de ter vivido um amor que nunca o foi.

Cláudia de Sousa Dias
06-08-2011 – 23-12-2012

6 Comments:

Blogger Maria do Rosário Sousa Fardilha said...

Impressiona-me a tua persistência, as tuas sinopses e críticas durante tantos anos. Li as três obras de SM que enuncias. Gostei bastante desta "Herança". Levou-me aos outros livros do autor. Obrigada pelo teu olhar. É sempre uma mais-valia. Beijinhos

1:15 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Ro! A tua opinião é para mim de extremo valor...

2:19 PM  
Blogger Célia said...

Obrigada pela visita.
Gosto muito de Sándor Márai mas ainda não li este livro.Fiquei curiosa.


another blog in the sky

10:00 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada, um beijinho.

10:01 PM  
Blogger Tadeu Giatti said...

Grato pela explanação minuciosa do romance "A Herança d Eszter". Eu o utilizo em minha dissertação de Mestrado em Educação, e, com essa sinopse, tudo se torna mais fácil!

2:54 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Ah... então depois eu vou querer um exemplar desse mestrado!

Para que a citação conte para o meu currículo...a sério. Isso valoriza muito o meu trabalho...!

10:41 PM  

Post a Comment

<< Home