HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

My Photo
Name:
Location: Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, January 28, 2013

"Adeus , minha Concubina" de Lillian Lee (ASA)




Tradução de José Luís Luna



Adeus minha concubina é o título de uma das mais belas e dramáticas peças do repertório da ópera tradicional chinesa (Nota do Editor).

Nos anos 30, os profissionais da ópera de Pequim eram treinados desde a mais tenra infância e submetidos a uma rigorosíssima disciplina, através da qual o erro era corrigido com espancamento, privação de comida, humilhações psicológicas. As condições de vida dos alunos, descritas nos primeiros capítulos do romance, são de extrema miséria, não lhes sendo dada sequer, a autonomia em relação ao próprio corpo, uma vez que são vendidos ao dono da escola pelos membros das suas próprias famílias. Lá, desenvolvem habilidades acrobáticas, arte marciais, expressão facial e modulação da voz. E também os laços de afectividade e camaradagem que se tornam mais apertados que quaisquer laços de sangue. A alfabetização dá-se, em contrapartida, só na idade adulta, com a instauração do regime maoísta, o qual faz da aprendizagem da leitura e da escrita componentes educativas obrigatórias, estendendo-as a todos os habitantes da República Popular da China.

Este foi um dos (poucos ) aspectos positivos do regime cuja a Revolução Cultural tentou eliminar todo e qualquer vestígio da China imperial e de carácter feudalista. O reverso da medalha é a perda total da autonomia devido à interferência, sem limites, do Estado na vida humana.

Lilian Lee consegue mostrar-nos, através de um belíssimo texto literário onde são intercalados alguns dos mais sublimes trechos poéticos da peça "Adeus minha Concubina", as mais revoltantes formas de violação dos Direitos Humanos mais básicos. A Autora exibe, sem qualquer pudor, a forma totalitária de difusão da propaganda ao regime maoísta que substitui e condiciona toda e qualquer forma de expressão artística, mutila a criatividade, expurgando qualquer manifestação de pensamento, do mais ínfimo vestígio de emoção para não deixar margem para um único átomo de individualismo. Trata-se da história do triunfo do Império da Censura e da Repressão. Todas as acções levadas a cabo pelos funcionários do Estado, têm como objectivo supremo a total submissão ao deus Mao, como conclui brilhantemente um dos personagens principais. Para isso recorre-se a métodos eficazes devido ao anonimato em que operam os seus especialistas, comosendo a delação. Encoraja-se também a traição, fomenta-se a inveja com vista à subjugação pelo medo e assim realizar o grande objectivo. Criar uma sociedade eficiente, produtiva e totalmente desumanizada.

Adeus minha Concubina não é apenas um livro que se serve de uma das mais belas e completas formas de expressão artística da China tradicional para ilustrar a situação política da época e os respectivos abalos sísmicos no seu tecido social e cultural ao longo do século XX e que se reflectem até aos dias de hoje. É, também, um riquíssimo texto literário, poético e trágico, que fala da história de um amor proibido, unilateral, e por isso mesmo recalcado, que não se pode exprimir livremente. Mas pode ser, igualmente, um documento de interesse histórico e sociológico que dá a conhecer uma sociedade desiludida por um quotidiano miserável e procura recorrer à arte como forma de evasão, uma válvula de escape para deixar fluir as emoções e ter acesso à vida heróica e sumptuosa dos seus interessantes personagens. O palco é, assim o local onde o sonho individual se materializa e o espaço onde cada um pode exprimir o que sente, recebendo o prémio do aplauso, que surge sempre que o público se identifica com o comportamento de uma determinado personagem. Até ao dia em que a própria ópera passar a ser censurada e o aplauso, controlado pela polícia política.

Adeus minha Concubina exibe a escrita de Lilian Lee no seu melhor, numa obra que reproduz, com um realismo quase cinematográfico, as alterações que a paisagem cultural que a China foi sofrendo ao longo do séc.XX, com o desmoronar do Império, a instauração da primeira República, a ocupação japonesa, a Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas e a própria Revolução Cultural...

A visão dos bastidores de um palco onde todos os papéis, masculinos e femininos, são interpretados por homens, dá-nos uma perspectiva de amarga ironia exposta na clivagem entre o estatuto social dos actores e o dos personagens que interpretam, criando uma interessante analogia entre aquilo que se passa no palco e no bordel (a prostituta tem de ser, necessariamente, actriz) e a teia de relações de poder que tenta, por todos os meios, "lapidar" a Arte.

Um livro que permite compreender até que ponto os verbos "amar" e "suportar" se encontram em campos opostos.

E que, ao contrário daquilo que afirmava o pai da Revolução Cultural, enquanto o amor não tem justificação, o ódio, por sua vez, pode ter milhares de justificações diferentes.

Sublime e acutilante.


Cláudia de Sousa Dias

Labels:

8 Comments:

Blogger nlivros said...

Olá Cláudia,
bom dia!

Como não são só bons livros que nos chegam às mãos, há uns meses criei uma rubrica no meu blog intitulada "O Pior Livro", rubrica onde convido vários bloggers a mencionar e opiniar sobre o pior livro que já leram.

Dessa forma gostava de te convidar a elaborar um pequeno texto sobre a pior obra que já leste.

Cumprimentos,

Blog NLivros

1:09 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

posso ter umas ideias, sim...

6:09 PM  
Blogger Baudolino said...

Olá Cláudia. Pois é, essa complexa realidade da China Pré e Pós Revolução Cultural.
Estou a ler o 'Peito Grande, Ancas Largas'. Até agora, estou a gostar do texto, despido das putativas polémicas sobre o autor que nada me interessam.
bj

3:20 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

sim, também tenho curiosidade em ler Mo Yan, independentemente das suas opções políticas. Só ainda não comprei o livro porque já me disseram que levou bastantes cortes face à versão original. Vamos lá ver se eu tenho paciência para esperar que saia a versão integral da obra...


CSD

8:54 PM  
Blogger Maria said...

Tens de ler o Deathless! É um livro sobre Koschei e Marya Morevna, folclore russo com "roupagem" moderna... ligeiramente moderna, revolução russa, comunismo, magia, romance épico. Acho que ias gostar. Há um excerpto no meu blog.

beijinhos

10:52 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Vou gostar, de certeza. Mas espero por uma tradução em Português. Ou quando mito, uma versão em inglês, um dia que vá viver para terras de sua Majestade...

5:01 PM  
Blogger Cíntia said...

Olá Cláudia,
gostaria de saber onde comprou o livro! É que estou farta de procurar e está esgotado em todo o lado!
Obrigada e parabéns pelo blog.

3:37 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Já é bastante antigo, Cíntia. E penso que este comprei mesmo na ASA no Edifício Oceanos na Av da Boavista no Porto...

5:26 PM  

Post a Comment

<< Home