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Tuesday, February 07, 2012

“Grandes Esperanças” de Charles Dickens (publicações Europa-América)







Tradução de Carmen Gonzalez


Charles Dickens foi o mais popular dos romancistas no período vitoriano, fazendo-se notar pelo impressionante talento literário e pela escrita de pendor humanista, inspirado nos ideais de Jean-Jacques Rousseau e influenciado, em larga medida, pelo seu contemporâneo, o escritor Victor Hugo. No entanto, Charles Dickens apresenta-se muito mais realista na construção das suas personagens, deixando de lado a idealização em que cai, muitas vezes o seu colega, em terras de França. No entanto, ambos partilham da ideia de que o homem nasce ”puro” de ideias – a teoria do “bom selvagem” de JJR – e de que é a sociedade que o corrompe, ideia que pode ser encontrada no na força motriz que impele o desenvolvimento da trama do romance de que aqui tratamos, sobretudo na cena em que Pip e Miss Havisham discutem o carácter de Estella, onde Pip defende que “mais valia deixar evoluir o carácter da jovem ao invés de moldá-la de forma a torná-la num monstro de frieza”. Trata-se de uma concepção do Homem que se opõe à ideia do “criminoso nato” defendida na altura pela escola de criminologia e pelos seguidores das teses do médico italiano Césare Lombroso, salientando a ênfase do contexto social como agente modulador da personalidade.
A obra tem em si muito de autobiográfico já que Dickens, tal como Pip, foi durante parte da sua adolescência obrigado a trabalhar duramente – dos doze aos quinze anos – facto que influenciou largamente a sua concepção do mundo e da sociedade. Dickens teceu fortes críticas à forma como era, então, explorado o trabalho infantil, durante a segunda fase da Revolução Industrial na Inglaterra do sec. XIX, tornando-se um profundo conhecedor da realidade operária do seu tempo e no seu país. Aos quinze anos, torna-se ajudante de notário e aprende estenografia. Aposta fortemente na própria educação, antes de se tornar escritor, em 1834, aos vinte e dois anos, precisamente a idade da emancipação de Philip Pirrip – Pip. 
Do autor, dizem-no herdeiro do pensamento idealista e do romance sentimental, mas o teor do texto é marcadamente psicológico, ou melhor, psicanalítico. O narrador – Pip adulto – tenta recriar a visão do mundo e da pessoas com os olhos da criança que foi, embora temperada pela capacidade de distanciamento e discernimento de um homem adulto. Grandes Esperanças é, simultaneamente, um livro de denuncia de inquitações sociais, primando pela exposição crua de situações de desumanidade, desigualdade ou falta de ética.
A beleza do romance está contida na forma pungente como Pip perde a inocência, mas sem se deixar contaminar pela maldade. Dickens acreditava que “uma natureza tendencialmente boa se desenvolve quando é amada”. É por esse motivo que Pip, apesar dos maus tratos de Georgiana, do desprezo de Estella e da perfídia de Miss Havisham, não deixa de irradiar uma persistente bondade natural, uma vez que é amado incondicionalmente por Joe e por Biddy, a preceptora e enfermeira da irmã, que mais, tarde, se torna sua madrasta. É, também, estimado pelos amigos, Wemmick e Pocket.

Violência Doméstica

Georgiana foi uma mulher que, até à altura do ataque de que foi alvo, sempre se deixava levar, ao contrário de Joe e Pip, pelo rancor e pela frustração devido às circunstâncias de viver em permanente situação de pobreza, aproveitando o ensejo de educar Pip com “mão firme” e colocar o marido “na linha” e, assim, descarregar a própria raiva nos seres mais frágeis: precisamente Pip e Joe. Ironicamente, é através da voz de Pip, que o Autor descreve com bonomia e sentido de humor, o ambiente doméstico e familiar que marca a infância do protagonista, caracterizado pelo acentuado clima de violência  exercida sobre os elementos masculinos do agregado, por parte de uma matriarca dependente do álcool que usa de chantagem emocional de forma a manipular os habitantes da casa, para além de recorrer a constantes ameaças de agressão física.

A figura do condenado
Tal como em Os Miseráveis de Victor Hugo, uma das figuras centrais deste livro é um condenado às galés. Mas será só na terceira parte do romance que saberemos a real posição que este ocupa na trama. Magwitch faz uma breve e terrífica aparição no início do romance, no cemitério, surgindo envolto em névoa, como uma alma do outro mundo, num cenário onde dominam as sombras e as cores sombrias e os contornos da realidade não aparecem definidos.

Na primeira parte do romance temos várias personagens a frequentar a casa de Joe, como o Sr. Woopsle, o sacristão que deseja ser actor, o qual é responsável por alguns dos momentos mais cómicos da narrativa; Hubble, o carpinteiro; o já mencionado Mr. Pumblechook, um untuoso negociante de cereais, dono de um armazém de secos e molhados, que introduz Pip na casa Satis, apenas com o objectivo de agradar a Miss Havisham e não exactamente por se preocupar com o futuro de Pip como quer dar a entender.

A Casa Satis
Pip só começa a frequentar a casa de Miss Havisham porque esta deseja um criado que brinque com a filha adoptiva e lhe sirva, ao mesmo tempo de cobaia. Miss Havisham, magoada com o abandono do noivo, deseja criar uma filha que lhe sirva o propósito de se vingar do género masculino, transformando-a numa harpia, treinada para maltratar todos os homens que se apaixonarem por ela. Ao criar esta espécie de louva-a-deus em forma de mulher, Miss Havisham está a prolongar a própria vingança para a posteridade, prolongando-a para além da própria morte. Trata-se de uma personagem movida pelo ódio, apesar da aparente amabilidade para com Pip, o pequeno pássaro que pretende lançar à serpente. Em casa de Miss Havisham todos os relógios pararam na hora exacta em que devia ter ocorrido o seu casamento: uma tentativa de estancar o fluxo do tempo e da memória, conservando, também, intacto, o mesmo ódio, mumificando a própria vida.
Logo no primeiro encontro com Estella, Pip descobre uma criatura de desmedida beleza, mas insuportável de tanto orgulho e altivez, que se empenha em ostentar o desprezo em relação à condição social de Pip. Este encontro é de extrema importância para o crescimento do jovem, uma vez que é precisamente a altura em que Pip toma consciência da desigualdade social e da barreira intransponível que o impede de conseguir o amor da mulher-menina a quem pretende cativar. O sofrimento causado por esta desigualdade não o faz, no entanto desistir do que deseja. Secretamente, alimentará …grandes esperanças.
O clima emocional deprimente na casa Havisham e o constante desprezo de Estella desenvolvem em Pip uma ansiedade permanente sem contudo ser totalmente destituída de esperança. Pip nunca chega a ser completamente feliz na casa Satis. Mas será ali que conhece aquele que será, mais tarde, o seu grande amigo, Herbert Pocket.

Miss Havisham é uma dama sinistra que destila maldade, indiferente ao facto de causar ou não sofrimento nos outros. Está apenas interessada em expulsar o tédio da casa, na qual a luz do sol está impedida de entrar e obcecada pelo prazer de manietar ambas as crianças. A luz solar adquire, aqui, a simbologia da bondade, pelas propriedades anti-depressivas e causadoras do bem-estar, em oposição ao gelo do Inverno e em associação à vitalidade estival. A luz solar está, também, conotada com a lucidez, simbolizando uma personalidade saudável e optimista.

Através de nova intervenção de Pumblechoock, que um dia decide levar Pip ao advogado Jaggers,o mesmo Pip é informado de que existe uma avultada herança de alguém de identidade desconhecida, em favor de Pip. Todos julgam tratar-se de Miss Havisham a identidade do misterioso benfeitor, uma suspeita alimentada pelo facto de Jaggers ser também advogado da terrível senhora de Satis... Trata-se de mais uma mudança que se reflecte no quotidiano da família e um ponto de viragem na trama: Pip muda-se para Londres para estudar e, a partir daí, começa a abrir-se um fosso, um inexorável abismo social entre Pip e os seus parentes...

Na segunda parte, o cenário muda. A acção passa-se em Londres entre o escritório, onde trabalha Pip, o quarto onde vive e o relacionamento com os colegas de trabalho e estudos, fora do local de trabalho. A tomada de consciência de Pip, tocante à perspectiva de receber uma herança, marca o primeiro volte-face no curso do romance. A ascensão social já não é impossível e a mão de Estella parece, no entender de Pip, já não estar tão longe.
Pip trava conhecimento com os colegas de escritório de Mr. Jaggers, conhecido advogado criminalista. Ali, é estabelecida em pouco tempo toda uma rede de simpatias e antipatias entre os aprendizes de Jaggers.
Não deixa de ser irónico e intencional por parte do autor que o elemento com o qual todos antipatizam, o carácter mais duvidoso, seja precisamente aquele com quem Estella acaba por casar.

Herbert Pocket, a quem Pip teria conhecido em casa de Miss havisham, é um jovem ingénuo, porém bastante inteligente, gerador de consensos, honesto mas com pouca autoconfiança. Dá lições de etiqueta a Pip com grande sentido de diplomacia. É em casa da família de Pocket que assistimos a um dos episódios de maior tensão no romance, apesar de narrado com uma intensa tonalidade discursiva de humor negro: em casa dos pais de Pocket, durante um piquenique ocorre um perfeito filme de terror durante o qual as crianças mais pequenas estão permanentemente expostas a uma situação de perigo, fruto da superficialidade e negligência maternas e alguma permissividade por parte do pai.

Em casa de Wemmick , onde Pip vai passar um fim-de-semana, passa-se algo completamente diferente: a dedicação do jovem ao pai, inválido, chega a ser comovente e a discrição do jovem face aos bens de raiz da família torna-o simpático aos olhos do leitor, assim como o facto de disfarçar uma profunda sensibilidade, oculta pelo profissionalismo exibido no escritório, denuncia uma forte necessidade de manter as emoções sob controlo de forma a proteger a própria privacidade: afinal, Jaggers exerce o poder à custa dos segredos e da vida pessoal daqueles que com ele trabalham, sejam eles clientes ou funcionários. Jaggers é alguém habituado a manipular os outros. Tem todos os conhecidos na mão, pois conhece-lhes os segredos.
Ainda durante um convívio em casa de Wemmick , Pip observa a noiva do amigo, reparando numa certa cumplicidade discreta, também, entre ambos. O noivo, sem dar a entender o teor do relacionamento entre os dois, trata-a algo possessivamente, colocando-lhe a mão no ombro ou rodeando-lhe a cintura. Pip só se apercebe da intimidade de ambos quando repara que bebem pelo mesmo copo. A apreciação do detalhe comportamental em termos de atitudes não verbais é outro dos aspectos com que o Autor nos delicia neste romance, a começar a sair do Romantismo e a entrar no Realismo.
Ainda nesta segunda parte, percebemos que o Amor não é imune ao Tempo. A meio do romance, já se percebe que, no momento em que o narrador está a contar a estória, Estella já faz parte do passado. Pip é um narrador omnisciente, porque está para além do tempo em que se passa a acção e está, já, na posse de todos os detalhes que compõem a trama, permitindo-lhe uma interpretação lúcida da realidade. Do Romantismo, vêm ainda os ambientes e cenários macabros como o cemitério, o ar fúnebre da casa Satis, o vento de aspecto fantasmal que envolve o cenário do reencontro entre Pip e o condenado da primeira parte, assinalando o fecho da segunda parte do romance.

Na terceira parte, iremos descobrir as ligações mais insuspeitas entre diversas personagens. Isto apesar de o Autor nos ter já fornecido alguns indícios, para nós insuspeitos, em episódios anteriores, como o pormenor das mãos de Molly, durante um jantar em casa de Jaggers, a forma como Magwitch trata Pip na taberna; o pormenor mais curioso é a ligação entre o desvendar da identidade do benfeitor de Pip e as origens de Estella. Os grandes vilões são desmascarados e tudo perece contribuir para um desenlace feliz…
A personagem Estella revela-se uma personagem modelada, cheia de cmbiantes, que se vai modificando à medida que os acontecimentos se processam, sobretudo na recta final do romance. Estella é uma jovem inteligente para além de bela, mas a falta de afecto na infância e a manipulação de Miss Havisham, tornaram a Estella adulta incapaz de empatia com o sofrimento alheio.
O romance acaba na verdade com dois casamentos ou dois finais felizes para os pares românticos secundários: o de Wemmick e Miss Shiffrin e o de Herbert com a bela e frágil Clara. É notório que o autor valoriza as personagens que cuidam de pais enfermos ou envelhecidos, reflectindo a preocupação social com a assistência à velhice, que a Revolução Industrial trouxe a lume.
Há também o casamento, mais do que esperado entre Joe e Biddy, consolidado pelo aumento da família e pela reaproximação de Pip e aqueles que o amam.
Estella e Pip ultrapassam divergências mas ficam sós, arrastando uma sólida amizade que se prolonga no tempo.
A estória de Pip é a da conquista do amor-próprio, em cujo espelho invertido se observa o depojamento do orgulho de Estella que a prejudicava socialmente impelindo-a para dois casamentos infelizes…
Miss Havisham tem o mesmo destino das bruxas dos contos de fadas, isto é, morre, vítima da própria maldade e do remorso, depois de tomar consciência da crueldade a que submeteu os dois jovens.

O autor serve-se, ainda, da personagem dúbia que é Jaggers para chamar a atenção para o destino das crianças excluídas, expostas a um elevado nível de risco social e à criminalidade para justificar o ter colocado Estella sob a alçada de Miss Havisham.
Já nas últimas páginas do romance, somos surpreendidos por uma cena de maldade aterradora protagonizada por um dos piores vilões do romance.

Grandes esperanças foi publicado pela primeira vez em 1860-1861, tratando-se de uma das melhores obras de sempre deste Autor. Foi aclamada pela crítica como “uma obra poderosa e violenta” e classificada como “um drama do qual não está ausente a sátira e o humor.
Grandes esperanças acaba também por ser um pouco um romance policial, onde só na recta final do desenvolvimento da trama, conseguimos descobrir a verdadeira identidade do benfeitor de PIP e, também a do assassino da irmã do protagonista, Georgiana.
O leitor é habilmente conduzido pela memória de um Philip Pirrip adulto, o qual evoca com uma nitidez impressionante as emoções da infância, antes de ser introduzido na mansão de Miss Havisham pela mão do “tio” Pumblechoock.
É através do fio de Ariadne da memória de Pip adulto, filtrada pela lucidez da passagem das areias do Tempo, que o leitor assiste ao devanear das “grandes esperanças” do jovem Pip, ao processo de construção da própria identidade e ao amadurecimento, pela forma como se coloca diante das relações de amor e de amizade.

Uma obra-prima de um grande Autor da Literatura Universal.


Cláudia de Sousa dias

(28.05.2011)

6 Comments:

Blogger redonda said...

Gostei do livro quando o li, e gostei de o relembrar agora enquanto lia esta crítica :)

11:47 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

E eu gostei muito de o reler, o ano passado, para a sessão do cineliterário de Abril...


csd

11:50 PM  
Blogger Olinda Melo said...

De Charles Dikens li 'Tempos Difíceis' há muito, muito tempo... :)
Encontrá-lo aqui, nesta excelente análise de 'Grandes Esperanças', faz-me querer voltar a ele. E agora com as preciosas informações que nos oferece nesta sua crítica, terei a oportunidade de o compreender melhor.

Obrigada

Olinda

1:28 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

"Tempos difíceis! nunca li. "Oliver Twist" vi séries e filmes e preparava-me para conseguir o livro para futuros cineliterários. "História de duas cidades" comecei a ler em inglês, mas não cheguei a terminar...Este é o meu preferido.

12:33 PM  
Blogger Maria said...

Ai, Dickens... tu e as tuas histórias intemporais e irritantemente humanas e cheias de tragédias :P

8:29 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

sim, este é um Autor consensual, ao que sei.

talento inequívoco e intemporal.

9:42 PM  

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