HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

My Photo
Name:
Location: Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Friday, August 16, 2013

“do Rio de Janeiro” de Alexandra Lucas Coelho (Tinta-da-China)




Na colecção de livros de viagens dirigida por Carlos Vaz Marques para a Editora Tinta-da-China falamos hoje de uma pequena colectânea de textos de Alexandra Lucas Coelho sobe a Cidade Maravilhosa, reunidos num pequeno volume promocional que foi, durante algum tempo, oferecido aos leitores que comprassem pelo menos um livro da colecção. Este será talvez uma pequena amostra de mais uma obra de ALC publicada por esta editora tal como o foram as obras Viva México e Caderno Afegão, as quais serão brevemente (espero eu) comentadas neste blogue.

Dados Biográficos

Actualmente, Alexandra Lucas Coelho é jornalista no Público e Grande Repórter, correspondente daquele jornal no Rio de Janeiro, mas o seu curriculum é bastante vasto e diversificado. Sendo natural de Lisboa, cidade onde veio ao mundo e 1967, ALC chegou a estudar Teatro, mas licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou como jornalista na RDP de 1991 a 1998, data a partir da qual editou os suplementos Leituras e dirigiu a colecção Mil Folhas do Público.

A partir de 2001, viaja com regularidade pelo Médio Oriente e pela Ásia Central onde recolheu material que serviu de base a Caderno Afegão (Tinta-da-China, 2009). Esteve também em Jerusalém, entre 2005-2006, período após o qual lançou o livro Oriente Próximo (Relógio d'Água, 2007). Publicou ainda, também na Tinta-da-China o livro de crónicas Viva México e Tahrir, os Dias da Revolução (2011), a propósito da Primavera Árabe no Egipto.

Do Rio de Janeiro

A variedade temática da colecção de textos de que aqui tratamos e que estão incluídos neste volume promocional, deixa-nos antever outro exemplar de crónicas a ser, provavelmente, publicado dentro de alguns anos na referida colecção, que nos deixará uma perspectiva não só jornalística mas sobretudo antropológica da forma de viver das gentes do Brasil nas primeiras décadas do século XXI.
Adoptando o ponto de vista dos habitantes locais Alexandra Lucas Coelho repara, com notável agudeza de espírito, diversas particularidade do “homo brasiliensis” em geral e dos cariocas em particular. A começar pela exploração da diversidade lexical e semântica das duas variantes do português – europeu e brasileiro – observando as consequências, na maior parte das vezes divertidas, dos equívocos originados por estas questões terminológicas no uso pragmático da língua pelos falantes de ambos os países. A língua continua a ser a fonte da qual se parte para falar de temas como o movimento intelectual e artístico do Tropicalismo na cultura brasileira, a amálgama resultante da fusão de culturas que compõem o produto final que é a Cultura Brasileira, o multi-culturalismo, a omnipresente religiosidade, o peso da religião e do sincretismo religioso do povo brasileiro. A isto junta-se ainda a vivência da trepidante vivacidade do Carnaval do Rio, cujo desfile tem, pelo menos durante poucos dias, o condão de diluir muitas barreiras sociais, à maneira das antigas Saturnais romanas. Aqui, é simplesmente a voz do corpo que fala mais alto.

Alexandra conduz-nos à favela Buraco Quente, num dos textos mais alucinantes desta publicação, até porque se trata de uma situação algo delicada que exige algumas medidas de precaução em termos de segurança. O motivo principal da visita é um surreal – para nós europeus – festival de música funk na favela onde dominam temáticas relacionadas com o sexo e a sedução mas também sobretudo com o poder...das armas. A pobreza é omnipresente mas a música e a dança parecem actuar como um refúgio ou um anti-depressivo, que se sobrepõe a tudo o resto. Afinal, está-se no Brasil e o sol convida à folia, mas nas entrelinhas da prosa ágil de ALC conseguimos captar algo está subjacente ao conteúdo das letras das músicas: é notória uma raiva latente, face à situação de gritante desigualdade social, algo que faz com que o tema dominante no festival seja a contestação do poder e da ordem estabelecida. Um sonho de revolução paira no ar e estamos apenas em 2010, ainda longe dos protestos que hoje se fazem sentir um pouco por todo o Brasil. Nesta altura, é apenas um sonho que anima a vida e actua como uma força centrífuga face ao vazio que é a realidade e a esperança de um futuro.

ALC é particularmente bem sucedida na descrição das realidades sociais, pintando quadros diversos da acção humana. É a fotógrafa da escrita. A objectiva do seu olhar antes das projecção na escrita é atraída pelas mais diversas situações, facetas ou hábitos sociais dos cariocas: desde a extrema pobreza em ambiente de favela no rio de Janeiro, à descrição do estilo de vida das jovens da classe média-alta daquela cidade, patente no texto Meninas do Rio, intertextualidade resultante da transposição para o feminino do título da canção Menino do Rio de Caetano Veloso, para um texto onde se fala das relações de género, da forma de estar de cada um, da divergência / de objectivos, enfim, de emancipação feminina, conquanto estreitamente ligada à emancipação masculina, em plena igualdade de oportunidades e equilíbrio das relações de poder géneros, sobretudo na forma de encarar a sexualidade. É ainda abordada a temática dos amores, da comoção de um concerto de Caetano Veloso, também numa favela, e da odisseia travada pela jornalista até chegar ao local do concerto, a provar que a rede de transportes públicos tem ainda muito por se (e que se) expandir, de forma a abranger toda a área metropolitana do Rio.

A principal virtude de ALC como jornalista, para além do estilo limpo, escorreito, sem floreados barrocos – e para além, também, da exactidão e da verosimilhança, que faz com que fiquemos com a impressão de estarmos a assistir a um documentário acerca da vida dos habitantes do Rio –, é a habilidade ao com que parece transitar de um tema para o outro, parecendo areseentar-nos um conjunto de textos em continuum ao invés de reportagens separadas, permitindo-nos quase que adivinhar um fio condutor que liga uma história e outra.

É por todas estas razões que aguardamos com alguma ansiedade o volume completo destas histórias do Brasil acerca do qual este volume já me fez abrir um apetite desenfreado, pelo resultado final mas que posso (e o leitores poderão também fazê-lo) ir degustando lentamente, história a história, no actual blogue da Autora que aqui vos deixo.



Boas leituras

26.09.2012-09.07.2013

Cláudia de Sousa Dias

4 Comments:

Blogger brasildasruas said...

Quem me dera se o funk fosse para mim, que sou do Brasil, algo surreal como é para os europeus. Funk só fala de promiscuidade, reflete a prostituição mas também a estimula quando canta sobre mulheres e homens objetos. Considero que a cultura que representa a favela é o RAP. mas, infelizmente, o funk está em todo lugar aqui no Brasil. Quanto ao Carnaval, acho que tem muito a ver com a política pão e circo daqui... mas o livro parece muito interessante! Abrçs

6:04 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, brasildasruas, pela opinião. É muito bom receber o feed-back dos leitores. Grande abraço.

9:26 PM  
Blogger Olinda Melo said...


Olá, Cláudia

Obrigada pela apresentação deste livro de ALC, pela análise e pela indicação do blogue da autora.

Bj

Olinda

10:16 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, eu a ti, Olinda.

Um beijo.


CSD

11:43 PM  

Post a Comment

<< Home