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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Sunday, October 20, 2013

“Myra” de Maria Velho da Costa (Assírio &Alvim)

“Myra” de Maria Velho da Costa (Assírio &Alvim

Antes da leitura deste livro, devo confessar que, de Maria Velho da Costa, conhecia apenas a sua participação em Novas Cartas Portuguesas, obra conjunta com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, sobretudo a controvérsia gerada pela ocasião da sua publicação, no início dos anos 1970, pelo forte abalo causado às actividades da censura portuguesa, durante o governo de Marcelo Caetano.

Myra foi, assim, o romance de estreia na minha leitura de Maria Velho da Costa e que me deu acesso à sua “voz” interior. Ao aflorar as primeiras páginas, deparei-me logo com uma escrita de uma profundidade assustadora, onde o cenário como que nos esmaga e, ao mesmo tempo, nos contagia ao contaminar-nos com uma angústia que é fruto da constante incerteza, relativamente ao futuro dos dois protagonistas: Myra, a criança de beleza extrema, filha de emigrantes de leste e Rambo (que a menina pronuncia Rimbaud, como o poeta francês, andarilho, o qual trocou a escrita e a fama pela vida errante de marinheiro), o Pittbull Terrier, maltratado pelos seus proprietários, que se transforma no seu amigo inseparável. O nome, pronunciado por Myra com sotaque russo, torna-se premonitório, pois Rimbaud foi um poeta tão inconformista e sequioso de liberdade que nem o impulso da escrita conseguiu sedentarizá-lo, como acontecerá com estas duas personagens. O mesmo espírito do Poeta parece animar este Rambô tornado quase selvagem, uma fera, por aqueles que desejam transformá-lo em instrumento usado nas lutas de morte. Rambô só se deixa prender pelo amor que lhe dedica Myra. A sua alma gémea é a criança, colocada em perigo pela extrema pobreza, que a deixa vulnerável, e pela beleza que lembra um farol em noite de tempestade. É Myra quem liberta Rambo, sub-repticiamente, do jugo dos seus opressores e que, com ele, e partilha a escassa comida de que dispõe. Rambô é uma fera mas sabe o que é a gratidão. Os dois transformam-se em eternos foragidos, excluídos da sociedade, insubmissos e para sempre inadaptados. Só o amor lhes traz a redenção. E o retorno ao Éden.
O romance desenvolve-se assim como uma odisseia, onde o ambiente físico, o relevo da paisagem, a meteorologia hostil e ameaçadora da cena de abertura, todo o cenário estão construídos de forma a espelhar os sentimentos, os anseios, os medos sentidos por Myra e Rambo, seu implacável guardião.
A narrativa é também desenvolvida consoante os padrões da tragédia clássica,apesar de se tratar de um romance ao invés de um drama.

Nesta perspectiva, temos três grandes momentos que formam esta narrativa tripartida, como um concerto em três andamentos ou,que, em teatro, corresponderia a três actos. O primeiro, pode ser identificado com a fase em que se encontram os protagonistas, ambos fugidos dos respectivos tutores que os maltratam. O ritmo é acelerado como num movimento de abertura de uma sinfonia ou de um concerto de três andamentos. Os acontecimento decorrem, nesta fase, num cenário lúgubre, onde o sentimento dominante é o medo, sobretudo em relação aos perseguidores de Rambô, que se adivinham extremamente violentos, enquanto a beleza do rosto de Myra parece surtir o efeito de um constante chamariz à Fatalidade, ao colocar diante de si inúmeros obstáculos à sua demanda: encontrar o refúgio nos braços de uma célula familiar onde se sinta amada e protegida, pois é sempre confrontada com figuras oponentes no seu caminho. Ao longo da sua odisseia com vista a encontrar as sua terra prometida, Myra encontra neste primeiro momento da narrativa, o sucedâneo de um lar, uma espécie de protecção temporária em casa de uma artista excêntrica, que a trata como uma espécie de animal doméstico não muito diferente de Rambô ou, na melhor das hipóteses, como uma criada. A casa da pintora proporciona-lhe apenas uma segurança relativa, uma vez que se trata de caridade e não de verdadeira protecção. Naquele lar, a criança é vista como um objecto que desperta a curiosidade da sua “benfeitora”. O crescimento de Myra aumenta-lhe ainda mais a vulnerabilidade pois acende o desejo carnal no amante da pintora, expondo-a ao risco de abuso sexual. Mas é sobretudo a consciência de Myra de que não é amada que a impele a continuar o seu caminho em busca daquilo que verdadeiramente motiva a sua sede de viver: a Liberdade e o Amor. Deste modo, a fuga de uma casa onde aparentemente, tem o necessário para continuar viva, a que se junta uma pequena vingança nemésica, marcam a transição para o momento seguinte da narrativa, onde o ritmo se torna mais lento e o discurso adquire uma tonalidade muito mais descritiva.

Neste segundo momento da diegese notamos, como já foi referido, um abrandamento no ritmo narrativo, como um movimento “andante”, numa peça musical. A tranquilidade e abrandamento são condizentes com os sentimentos dominantes, nesta segunda parte. Este é tempo do encontro com o Amor, o Sublime e o Belo. A acção passa-se no Alentejo, numa bela casa-refúgio, parcialmente escondida numa quinta, especialmente cuidada para ser aprazível e garantir aos seus habitantes o abrigo das agressões climáticas e, simultaneamente, das ameaças da sociedade. Há também, naquele cenário idílico, uma atmosfera misteriosa como a dos palácios encantados dos contos de fadas, a incluir serviçais que aparecem e desaparecem misteriosamente, cuidando dos donos da casa sem propriamente participar da vida deles, animais que se comportam como humanos ou possuem alma, pensamento e vida interior como os seus donos, não somente Rambo mas também a gata Brunhilde. O desenvolvimento da narrativa nesta fase apresenta várias semelhanças com a história do mito grego de Eros e Psique, uma vez que é dado a entender que, para Myra, será talvez melhor saber o menos possível da vida do seu misterioso benfeitor, um jovem belo e misterioso, de cuja vida fora daquele lugar nada se sabe.

A casa e a propriedade que lhe está adjacente assemelha-se a uma espécie de Olimpo ou Wahlhala, lugar de repouso dos heróis, confirmado pelo nome da gata, Brunhilde (nome de uma das valquírias da ópera de Wagner, “A Valquíria”), criando assim uma ponte ou intertextualidade face ao cenário da ópera do compositor alemão, já que a quinta parece ser uma espécie de abrigo onde se recolhem os bem-aventurados. Todos os seres que habitam aquela mansão parecem empenhar-se em contribuir para o restabelecimento anímico de Myra e Rambo, ao contrário do que acontecia no espaço habitado do momento anterior da narrativa, onde os seus residentes se limitavam a assegurar-lhe a sobrevivência. Este lugar é um oásis que funciona na como contraponto, pela via contrastiva, face ao momento anterior, no qual dominava o deserto afectivo e como protecção relativa a uma sociedade onde domina a selvajaria, que encontra o seu paroxismo nos meios mais urbanizados,. E é precisamente nas duas principais cidades do país, ou na sua periferia, que se dão as cenas mais violentas do romance, já no último momento da história.

A terceira parte decorre de uma alteração brusca dos acontecimentos, obrigando os protagonistas a deixarem o “paraíso” onde vivem, e a enfrentar o mundo real, onde o acaso ou a predestinação faz com que se cruzem com a fatalidade. A tragédia ocorre mediante o choque inevitável com um mundo corrupto do crime organizado, infiltrado nas estruturas do poder pela colocação de testas-de-ferro, encarregues de sujarem as mãos, enquanto os autores morais dos crimes se escudam atrás dos seus cargos e imagem de aspecto impoluto. Myra e Rambo rumam então ao Porto – a cidade invencível, a invicta – onde, ao enfrentar os seus algozes, fazendo jus à fama histórica da cidade banhada pelo Douro, identificando-se com ela.

O estilo de Maria Velho da Costa é marcado pela beleza das palavras sombrias e pela dura exposição dos mais negros aspectos da natureza humana, que o homem comum prefere, normalmente, ignorar: a impunidade, o tratamento do outro como uma mercadoria, o desrespeito pelos seres vivos em geral, a insegurança e os desregramento social que nascem da indiferença social e se reflectem na falta de protecção aos mais débeis. No entanto, a Autora, apesar da beleza plástica da linguagem, não se coíbe de usar o vernáculo, ao dar a voz às suas personagens e sempre que o contexto assim o exige.

Mas se, por um lado, a riqueza e a força da escrita de Maria Velho da Costa reflectem um vasto leque de intertextualidades – desde a semelhança da sonoridade em o nome Rambo, pronunciado por Myra, que transforma um cão de luta de morte, inspirado na célebre personagem do cinema norte-americano, Rambo, em Rimbaud, no poeta de vida errante que perseguiu sempre a ideia da liberdade absoluta a escolher uma vida sem amarras nem residência ou pátria fixa, a Virginia Woolf, quando a Autora escreve a partir do ponto através do olhar do cão, como já havia feito a Autora britânica num dos seus contos, ou coloca a androginia do namorado de Myra em destaque, evidenciando a beleza daí resultante assim como as suas qualidades humanas, tal como acontece com a personagem Orlando de VW. Pier Paolo Pasolini também é aludido num dado momento da narrativa, na segunda parte, como prenúncio ao ordálio que virão os dois amantes sofrer no terceiro momento da história.

A vulnerabilidade social de Myra lembra também situações semelhantes utilizadas por cineastas como Theo Angelopoulos em Passagem na Neblina e Bahman Gobahdi com As tartarugas também voam, embora estes não estejam referidos no texto, pode-se contudo encontrar várias analogias com situações presentes nas obras destes dois cineastas, nomeadamente a situação de extrema pobreza vivida por Myra e as heroínas de palmo e meio do grande écran, assim como a respectiva vulnerabilidade face à acção de eventuais predadores sexuais.

Myra obteve, com total merecimento, o Prémio Correntes d'Escritas 2009, num dia em que Maria Velho da Costa se viu impedida de recebê-lo pessoalmente, devido ao ciclone que nesse dia fustigou a Póvoa de Varzim sob o aviso meteorológico de alerta vermelho, interrompendo durante horas o funcionamento da linha férrea, os elementos em fúria e tão hostis como no capítulo introdutório do romance:

«Myra atravessou os carris desconjuntados em direcção ao mar.

Cresciam ervas e tojo e havia chorões apodrecidos nas juntas e as traves e ferros estavam negros das marés vivas sujas de crude. Corria contra o vento, procurando saltar as arestas de cascalho e os cacos de vidro, pulando alto e entreter frio e o seu desgosto.

O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas e verdes na distância mais clareada do horizonte e pareciam, céu e mar, uma única onda a levantar-se para cobrir a terra. Myra tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver aquele assombro. Se corresse por ali dentro, ninguém daria com ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro.

Assoou-se à bainha da saia e limpou o resto da cara ao casaco esburacado que a mãe lhe fazia usar em casa e que dizia que viera de lá. Myra lembrou-se da neve em cima dos telhados de ouro e loiça. E os blinis que não tinham nome nesta terra. Ao princípio nada tinha nome. E a avó, com ela pela mão,a esconder-lhe a mão. Tanto medo.»

O livro lê-se à velocidade de um relâmpago, com a mesma emotividade e angústia com que se viaja numa montanha russa e a sensação permanente de se caminhar no fio da navalha, onde o abismo ameaça engolir-nos ao mínimo passo em falso.


11.12.2012-11.09.2013
Cláudia de Sousa Dias




5 Comments:

Blogger CNS said...

Ando já há algum tempo com vontade de ler este livro. Acho que é desta.

7:03 PM  
Blogger M. said...

De Maria Velho da Costa, também só as Novas Cartas Portuguesas, que me deixaram muita curiosidade de ler mais das três! Excelente crítica, como sempre!
Beijocas ;)

12:40 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Cristina, vais adorar!

12:10 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Madalena és sempre a mesma querida!

12:10 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Outra visão deste magnífico livro é a de Teresa Sá-Couto, aqui:

http://comlivros-teresa.blogspot.pt/search/label/Maria%20Velho%20da%20Costa

1:02 AM  

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