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Wednesday, November 20, 2013

“Crónica de uma travessia – A Época dos Ai-Dick-funam” de Luís Cardoso (Dom Quixote)



Luís Cardoso nasceu em Timor. Licenciou-se em Silvicultura pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e concluiu uma pós-graduação em Direito e Política do Ambiente pela universidade Lusófona. Foi o representante do Conselho Nacional para a Resistência Maubere em Lisboa.

Crónica de uma travessia é um livro de carácter autobiográfico, editado pela primeira vez em 1997. Depois desta obra escreveu ainda Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo (2002), A última Morte do Coronel Santiago (2003) e Requiem para um Navegador Solitário (2007) e O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação (2013).

Sobre a obra de que aqui tratamos hoje, o recentemente falecido poeta, romancista e crítico literário Urbano Tavares Rodrigues escreveu o seguinte :

«É um livro que funde o género biografia e romance, resultando dali uma “crónica” com elementos ficcionados...».

E também que:

«Passa neste livro um sopro de natureza, através do entrosamento de duas culturas, uma delas ainda carregada de elementos mágicos».

O livro terá, portanto, características biográficas por nele estarem presentes as marcas dos lugares, das pessoas que os habitam e marcaram de alguma forma a memória do autor, como a vida na aldeia onde cresceu, os périplos realizados com o pai, enfermeiro de profissão e, mais tarde, prisioneiro de guerra na ilha de Atauro. A tudo isto, junta-se o exílio contado na primeira pessoa pelo narrador, que retrata os tempos de juventude em plena década de 1970, depois de concluir o ensino secundário e ingressar no Ensino Superior em Portugal.

Na trama, embora sem ocuparem um lugar central nos acontecimentos, passam também personagens históricas, da cena política ou das artes e das letras, tais como Xanana Gusmão, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Um dos aspectos mais fascinantes do livro consiste na descrição das tradições religiosas do povo maubere, do sistema de crenças local, assente num sincretismo religioso, resultante da presença portuguesa na região e influência do catolicismo, de onde brota uma fusão de elementos das religiões antigas com elementos do cristianismo, introduzidos pelos missionários Jesuítas.

Outra questão amplamente debatida no romance é o acesso à educação e ao emprego pelos habitantes de Timor durante o Estado Novo, uma época em que o tipo de ensino a seguir pela criança era previamente determinado consoante o estrato social, à semelhança do que acontecia o território continental.

«O liceu era um local muito selectivo onde estudavam os filhos das altas autoridades europeias, que chegavam de manhã com sono, nos carros oficiais, e eram acordados nas aulas pelas professoras, esposas de súbditos e subalternos: “O menino Pedro dormiu mal?”. Os filhos dos funcionários menores e colonos que chegavam nos seus carros particulares: “Pedro, cale-se!” (…) e os filhos dos funcionários nativos: “número 77, ou te calas ou rua!”».

«Face ao grande insucesso escolar e à falta de saídas profissionais, foi instaurada uma escola técnica com o nome do então Ministro do Ultramar, Silva Cunha. Um edifíci omoderno, que me lembrava um pombal, e acolhia um numeroso contingente de jovens timorenses, maioritariamente oriundos do interior. Procuravam uma informação técnica e rápida que desse acesso a um emprego.»

O que salta à vista em Crónica de uma Travessia é uma de sociedade extremamente estratificada e a quase inexistência de mobilidade social. A própria descrição das zonas mais rurais de Timor, que, como sabemos, era na altura era uma colónia portuguesa, em pouco difere das descrições dadas pelas pessoas mais antigas em Portugal daquilo que era a sociedade do Estado Novo no continente.

Crónica de uma travessia explora ainda, de forma detalhada, para além da questão da estruturação social local, os conflitos entre a administração portuguesa e os chefes tribais das aldeias mais remotas. Face a isto, o discurso do narrador é eficaz em trazer a lume situações de abuso cometidas por governadores portugueses e chefes da administração local, em particular na forma como humilhavam os chefes das referidas tribos locais.

«Meu pai confidenciava-me que as histórias e os rumores que corriam nas Knuas (povoações) e sobretudo aquelas que eram contadas pelo seu protector e padrinho Mestre Mário Noronha, genro do falecido D. Boaventura, tinham outro enredo. Que a rainha de Manufahi era linda e branca, pelo que, atormentava a cabeça e atraía a cobiça do comandante militar e Same que, embora casado e pai de um filho, sucumbia de paixão por aquele feitiço, feito mulher indígena. E ele, militar, guardador de interesses da pátria e dos segredos íntimos da Nação, tencionava resgatá-la dum enlace que achava contra-natura e contrariava toda a intenção da demanda e da conquista. Tal paixão e atrevimento custou-lhe caro pagando com a vida, a ira do chefe tribal e marido».

O Autor inclui, também, no romance a referência a um episódio histórico muito pouco divulgado antes e depois da Revolução de Abril e, por isso mesmo, desconhecido para a maior parte dos portugueses: a invasão de Timor-Leste pelo Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura deste romance de Luís Cardoso encarrega-se de mostrar ao leitor que o Estado Português afinal não escapou totalmente à guerra, ao contrário do que afirmava a propaganda do regime, já que Timor fazia parte do Império Ultramarino Português.

« (o meu pai) Foi chamado para fazer o curso de enfermagem na altura em que deflagrou e Segunda Guerra Mundial: quando os Japoneses entraram em Timor, já andava a municiar os comandos australianos que moveram uma intensa e desmesurada defesa contra os nipónicos».

Mas o aspecto mais presente no romance e que acompanha a trama do princípio ao fim é o choque de civilizações, onde esse evidencia a intenção de uma nação submeter e esmagar a outra no seu orgulho intrínseco.

Crónica de uma Travessia é, pois, a história de um tempo perdido e dos primórdios da resistência e autodeterminação da identidade do povo maubere e um livro que se torna inquietante pela proximidade de um tempo que críamos distante, face aos dias de hoje e reflectido num quotidiano que gostaríamos de ver afastado dos nossos olhos à mesma velocidade do afastamento intergaláctico.



12.01.2012-02.10.2013
Cláudia de Sousa Dias



2 Comments:

Blogger M. said...

Confio na opinião de Urbano Tavares Rodrigues e na tua! A ler logo que possa...
Beijinhos e agasalha-te ;)

2:28 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada M.!

Sim, por aqui não podemos facilitar cm o frio...

12:07 PM  

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